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segunda-feira, setembro 04, 2006

A Ti Josefa

Na mesma quelha, próxima da casa do padre, paredes meias com a do Ti António Álvaro, viviam inúmeras pessoas, como, aliás, por toda a aldeia, que era estreito o espaço coberto e muitos os filhos que Deus mandava para substituir os que as febres levavam.

A Ti Purificação amassava a farinha e acudia à panela da sopa enquanto a massa fingia, antes de a tender para a levar ao forno e dele tirar, tostados, bolos e trigos, estes com o dobro do peso daqueles e igualmente divididos em quartos fáceis de esnocar à mão.

Só pela Páscoa cozia as santoras, pão da mesma massa, em forma de ferradura, folar que os padrinhos davam aos afilhados com a bênção que lhes era solicitada.

A Ti Josefa, que conheci sempre velha, essa rumava a Almedilla, aldeia espanhola que ficava do lado de lá de Batocas, onde dois comércios viviam da coragem e do sacrifício dos contrabandistas portugueses.

Palmilhava longas léguas para trazer trigo obrado à espanhola, alpercatas, pana, e, por encomenda, tabletes de chocolate da Senhora das Candeias e galletas que haviam de cobrir, sob o pano de linho, o prato junto à garrafa de jeropiga que o padre e o sacristão haviam de provar, pela Páscoa, depois de darem o menino a beijar e recolherem o óbolo.

A Ti Josefa era mulher rija, enxuta, com marreca que os anos acentuaram e pernas lestas capazes de percorrer oito léguas sem afrouxar. Muitas vezes a espoliaram da carga os carabineiros e guardas-fiscais quando a filavam ou ela própria lha abandonava para mais facilmente se escapulir.

Outras vezes teve mais sorte quando alguém se encarregava de atar gestas no carreiro e tropeçavam os carabineiros com a arma, dando tempo a pôr-se a salvo do lado de cá da fronteira se os guardas-fiscais não andavam por perto e alertados por algum disparo dos espanhóis.

Os tiros raramente atingiam contrabandistas, não tanto por escrúpulo ou compaixão dos guardas mas por instinto de sobrevivência. Cada baixa de um contrabandista, sobretudo da zona do Sabugal, era vingada num elemento das forças policiais. Podia sobreviver o que matou mas marchava, por desforra e à guisa de advertência, outro da nacionalidade respectiva. O autor raramente pagava, era difícil a prova e protegia-o o silêncio geral.

A Ti Josefa aprendeu em menina a arte do contrabando e dela fez vida até que a idade a levou. Foram para aí sete décadas que consumiu entre a Miuzela e Almedilla e, por fim, Fuentes de Oñoro, quando os guardas, de um lado e outro da raia, lhe respeitavam os anos e a carga.

Vinha então pela linha do comboio, circulando entre os carris, vergada ao peso da idade e da mercadoria, saltando para os lados quando o comboio, cujos horários conhecia pelo sol e pela intuição, se aproximava.

Um dia, passados já os oitenta anos, lá vinha, como de costume, e não ouviu o apito nem deu conta da aproximação do monstro, mas, muito perto, pressentiu o perigo e logo se amochou enquanto o Rápido desapareceu por cima da Ti Josefa e da sua carga sem lhe deixar um arranhão ou estragar a mercadoria.

Era rija a velha. No dia seguinte voltou à faina que os clientes eram certos e o hábito se tornara mais forte do que a precisão.

3 Comentários:

Anonymous JSfernandes disse...

Mais um excelente repositório da memória das nossas terras.
Obrigado e esperamos sempre mais

6:33 da tarde

 
Blogger Alexandre Marta disse...

Fantástico. Uma narrativa absolutamente genial; como, de resto, o autor já nos habituou.
Memórias que vão ficando, para bem de todos os Miuzelenses (e não só).
A propósito: para quando um livro?

9:45 da tarde

 
Blogger Alexandre Marta disse...

Absolutamente genial

9:47 da tarde

 

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