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segunda-feira, maio 15, 2006

Terras da Beira

São cada vez mais os mortos que povoam os cemitérios e menos os vivos que ficam. Os jovens saíram pelas estradas que invadiram o seu habitat. Fugiram das courelas que irmãos disputavam à sacholada e à facada, dos regatos que secaram a caminho das hortas, da humidade que penetrava as casas e os ossos e da pobreza que os consumia.

Não há estímulo para permanecer. Não se percebe que as penedias tivessem custado vidas na disputa da fronteira, que homens se tivessem agarrado aos sítios e enchido de filhos as mulheres que lhes suportavam o vinho, a rudeza e os maus-tratos.

Os tempos mudaram e os campos, abandonados, são pasto de chamas que lhe devoram os arbustos, no estio, e os entregam à erosão.

Os funerais são o momento de fazer o recenseamento dos que resistem. Nas missas, os padres em via de extinção debitam com ar sofrido a homilia, com pressa de passar à paróquia seguinte e sem coragem para falar do Inferno. Ora, sem medo, sem ameaças e sem convicção não há fé que resista ao ar lúgubre de uma igreja, ao frio do lajedo e às imagem que substituíram as antigas que rumaram aos antiquários.

Falar de castidade a quem a idade condenou, dos malefícios do aborto a quem passou há décadas a menopausa e na obrigação de aceitar os filhos que Deus mandar a quem já não é capaz de os gerar, é persistir em rotinas que a desatenção e a demência cultivam.

Há dias fui à Beira onde nasci. São poucas as pessoas que permanecem. O País inclina-se perigosamente para o mar com o interior despovoado, a caminhar para o deserto. Outrora, aquela zona foi um alfobre de gente, hoje é um cemitério de recordações em vias de extinção.

A nossa incúria vai reduzindo Portugal a uma estreita faixa com mar à vista. Até o Presidente da República diz que devemos virar-nos para o mar. É uma forma de nos afogarmos de frente.

Foi esta regionalização que o PSD e o CDS quiseram.

2 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

Só lapso de memória poderá explicar tamanha lata! Então e os outros?! A esuqerda?! Sim essa mesma! Não é preciso muita atenção para se notar ... tanta coisa para dizer, tanta ... Mas inverter a inclinação também cabe a todos, principalmente aos que lá vivem que devem protestar e fazerem-se notar recorrendo seja ao for preciso ...!

9:52 da manhã

 
Blogger beatriz disse...

A desertificação do interior é assunto de enorme complexidade, pelo que nao pode ser avaliado com precipitaoão, sobretudo no julgar aqueles que a sentem.
Inverter a inclinação implica conscienia e por isso parece-me ser este post escrito com grande esclarecimento e conhecimeto de causa.É bom ver que para além das pessoas de castigada idade, existem outras de voz clara e fluente. A instisfação pode por vezes gerar frustração ou ser criadora de inovação.
Força para todos

10:43 da manhã

 

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