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quinta-feira, abril 10, 2008

Veredas do contrabando, trilhos da sobrevivência


Quando da vida já percorremos parte substancial do caminho que nos coube e falta ainda o que ignoramos, assalta-nos a vontade de exumar da memória as pessoas que eram amigas dos nossos avós e foram nossas também.

Em meados do século passado o contrabando era um crime que tinha uma força policial dedicada para lhe pôr cobro. Não me refiro à candonga de divisas, de favores e de honra, que essa não tinha quem a refreasse e não lhe faltava quem a protegesse.

Menciono o contrabando de azeite ao dorso de machos que caminhavam lestos com dois odres, seguidos do dono, ou de pães de trigo amassados ao torno - «trigos espanhóis» -, comidos à mesa dos mais ricos ou dos remediados, em dias de festa canónica, e que chegavam de Espanha nas costas vergadas de aldeãs.

Eram cortes de pana que vinham de encomenda e cujo lucro se sumia na carga apreendida, os chocolates da Senhora das Candeias, as galletas, alpercatas, caramelos e outros bens escassos com que mulheres determinadas cruzavam a raia de Portugal até à casa do consumidor, que ora evoco.

Ver na luta pela sobrevivência mulheres de corpo tão débil e coragem tão forte era um apelo á conivência com as autoras do delito e à suspeita e animosidade para com a Guarda-fiscal. Como poderiam ser delinquentes a senhora Margarida e a sua cunhada Ana que iam a pé da Malhada Sorda até Almedilla para satisfazerem as freguesas e subsistir com os escassos ganhos do arriscado viver? E que dizer da Ti Esperança e da Ti Maria Josefa, que iam da Miuzela do Côa, e de tantas outras com o corpo alquebrado dos fardos e as alpergatas rotas pelas asperezas do caminho?

Também havia homens que andavam na candonga, vivendo os mesmos medos e angústias, sem lhes minguar o tempo para encherem de filhos as mulheres, próprias e alheias, mas fui sempre mais apiedado dos sacrifícios e tormentos das mulheres, convicto de que seriam nelas mais sofridos os espinhos.

Faziam seis léguas, calcorreando os trilhos da sobrevivência, com o temor dos guardas que lhes tolhiam o passo e lhes assaltavam as cargas. Iam em grupo e voltavam desgarradas dezenas de metros para que a infelicidade de umas as não atingisse a todas. Depois, lá estava a solidariedade das que escapavam a abonar as vítimas que teimavam no ramo a fazer pela vida.

Era assim, vergadas ao peso e ao medo, que viajavam a pé num raio de três ou quatro léguas que percorriam nos dois sentidos. Para irem mais longe, até à cidade da Guarda, onde eram mais endinheiradas as freguesas e substanciais as encomendas, iam as pobres contrabandistas no trama que tomavam no apeadeiro da Quinta da Ribeira dos Abutres, crismado como Aldeia de S. Sebastião depois de uma febre pia que percorreu o país, na Freineda ou no Noémi, após um sinal enviado do comboio de que não havia perigo, isto é, não iam guardas-fiscais a bordo.

Depois eram rápidas a repartir as cargas por passageiros conhecidos e a defendê-las de um eventual assalto policial que podia surgir mais adiante. Nem sempre venciam as contrabandistas, às vezes ganhavam os guardas surgidos noutro apeadeiro que confiscavam a mercadoria e indagavam quem era o dono perante uma carruagem de mudos. Se tudo corria bem, quando o comboio abrandava a marcha, a duas ou três centenas de metros da estação da Guarda, rolavam as cargas bem acondicionadas para uns lameiros onde iriam depois procurá-las.

Era neste jogo do gato e do rato, um jogo de que dependia a sobrevivência das contrabandistas e dos guardas-fiscais, que circulavam as mercadorias e se respondia às urgências de uma economia de subsistência e à ineficácia dos circuitos comerciais.

Despachados os artigos e arrecadada a paga, esperava-as o caminho inverso, a passagem por casa, onde havia trabalhos domésticos em atraso, e, de novo, com um parco farnel que tragavam em andamento, lá voltavam aos trilhos bem conhecidos, labirintos que em noites de Lua Nova só as mais experientes atinavam. E o cuidado que era preciso ter para evitar tropeções nas pedras largadas na última passagem ou nas gestas atadas para que nelas esbarrassem os guardas e, quantas vezes, por mor disso, nelas se estatelavam as próprias.

Eram ásperos os trilhos do caminho, tanto quanto os da vida que lhes coube, a epopeia sem alternativa e o destino que o instinto de sobrevivência e a geografia lhes marcaram. Ainda hoje sinto os beijos meigos dessas mulheres que me confiavam o segredo do esconderijo das cargas, detrás da lenha do palheiro dos meus avós, e me deixavam a colocar molhos de vides para melhor as dissimular enquanto repunham as forças com meio trigo da Miuzela, uma posta de bacalhau frito e meio quartilho, antes de perscrutarem fardas nas redondezas, recuperarem as cargas e retomarem a marcha.

11 Comentários:

Anonymous David Mndonça disse...

Excelente artigo... Parabéns Carlos Esperança. Tenho a minha avó que também andava no contrabando e que muitas vezes me contava estas histórias. Admiro e em muito estas pessoas que faziam de tudo para sobreviver. Por vezes chego a pensar se muitos dos jovens se encontrassem nestes tempos o que seria deles... Agora é tudo um mar de rosas... Ou menos mantenha-mos na memória estas histórias que tanto contribuiram para o desenvolvimento da nossa Aldeia.

1:32 da tarde

 
Anonymous Carlos Esperança disse...

Obrigado, David Mendonça, pelo comentário.

Sabe, a Miuzela foi para mim a terra onde aprendi a ser livre e fui feliz, em casa dos meus avós maternos.

Devo à Miuzela as melhores recordações da infância e, de vez em quando, pago uma pequena prestação do muito que lhe devo.

Foi o caso.

4:32 da tarde

 
Blogger aroque disse...

Um texto muito real da triste realidade que se passava nas aldeias da raia.
As palavras são arrancadas à dureza da vida e assumem-se com as cores naturais dos factos.
Era assim noutros tempos...
Homens e mulheres rijos que fizeram das suas necessidades vidas de mil aventuras.
Felizmente conheci alguns nomes deste texto e a lembrança deles é sempre uma viagem ao passado e ao valor das pessoas da minha terra( Miuzela).
Relativamente à ilustração, em minha modesta opinião, poderia ter sido escolhida outra ponte..talvez a ponte da linha férrea, um pontão sobre a ribeira do Noémi, um pontão sobre o Côa...
Mas esta é somente uma opinião.

António Roque Reis Anselmo

2:43 da tarde

 
Anonymous Carlos Esperança disse...

António Roque Reis Anselmo

É uma ponte sobre o Côa e foi a única que encontrei na NET.

Obrigado, de qualquer modo, pelas palavras e pela sugestão.

6:39 da tarde

 
Blogger David Alexandre Nascimento Mendonça disse...

Olá Carlos. Depois de ler o cpomentário do aroque pensei que talvez quisesses algumas fotos da miuzela. Aproveito de igual modo para te inmformar que irá ser elaborado um álbum digital com fotografias da Miuzela. Este álbum só estará pronto em finais de agosto mas se estiveres interessado poderemos (Centro Miuzelense) enviar-te umá cópia. Abraço

7:46 da tarde

 
Anonymous Carlos Esperança disse...

David Alexandre:

Claro que estou interessado em fotos da Miuzela sobretudo se ainda tiverem o pinheiro manso a cuja somgra joguei a bisca e a sueca.

Obrigado.

Abraço.

aesperanca@mail.telepac.pt

2:39 da tarde

 
Anonymous Anónimo disse...

Ainda relativamente à foto escolhida e não, obstante, retirar mérito e qualidade ao artigo, parece-me esta ser a antiga ponte de pedra sobre o Côa antes de Almeida, o que não corresponde à realidade das rotas do contrabando nas quais a Miuzela se inseria. De facto, disponibilizo esta foto (http://br.monografias.com/trabalhos2/rio-coa-portugal/Image4209.jpg ) que corresponde a uma travessia do rio Côa nas épocas mais chuvosas e antes de ser construída a ponte para Badamalos. No verão era possível atravessar o Côa directamente para Vilar Maior e daí em direcção a Aldeia da Ribeira - e Albergaria de Argagnan e Almedilla ...

6:46 da tarde

 
Anonymous Anónimo disse...

A maioria das pessoas ia a Espanha comprar pão para comer e não iam na «candonga», pois em Portugal, no pós-guerra eram tempos de miséria...

9:02 da tarde

 
Anonymous Carlos Esperança disse...

Anónimo 6:46 PM:

Obrigado pela foto que me indicou e pela qual substituí a anterior.

«Ainda relativamente à foto escolhida e não, obstante, retirar mérito e qualidade ao artigo, (...).

RE: Não penso que as fotos retirem mérito ou qualidade aos artigos ainda que, legitimamente, possa o leitor não apreciar o texto que escrevi.

1:49 da tarde

 
Anonymous Anónimo disse...

Sim, como diz, a foto não retira mérito ao artigo, que aliás está muito bem escrito, à semelhança dos outros que tem disponibilizado. O que escrevi, sendo à pressa, pode ser interpretado de forma diferente do sentido que tinha em mente. Mas, neste caso, e recordando o que várias pessoas diziam desses tempos dificeis, em que em Portugal «até as pedras davam pão», pois os terrenos aráveis eram escassos e limitados e a população crescia de ano para ano, se não fosse o pão que se comprava, mais barato e abyndante em Espanha, muita gente tinha morrido directamente à fome ou pelas doenças induzidas. Outros, de forma mais organizada estavam inseridos em autênticas «redes de contrabando». Mas os trajectos eram entre a Miuzela e as povoações da raia, ou seja, por Badamalos, Vilar Maior, Aldeia da Ribeira, Aldeia da Ponte e as aldeias do lado espanhol. No verão, podia-se atravessar o Côa, em direcção a Vilar Maior, pelo chamado «Vale Formoso». Cumprimentos.

9:44 da tarde

 
Anonymous Anónimo disse...

Para quem queira saber um pouco mais sobre a região não perca:

http://br.monografias.com/trabalhos2/rio-coa-portugal/rio-coa-portugal.shtml

6:18 da tarde

 

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